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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A grama do vizinho

Dia deses li um texto sobre a tal personagem da Paola Oliveira e fiquei triste, de verdade. Eu não deveria falar nada porque nunca vi o tal programa em que a Paola é estrela, faz anos que não assisto à emissora. Não assisto porque não gosto, não preciso e não sou obrigada. Sobre a Paola: linda, cara de chique, dizem que é uma chata em casa (mas isso é uma questão de gosto e opinião, right?). Se é boa atriz não sei, porque isso é muito relativo no país. Há alguns superbem falados e eu acho ruinzinhos, mas vai ver eu também sou chata como a Paola... whatever.

Deixa eu explicar o motivo da minha tristeza. O texto falava sobre o cara chegar podre em casa e se deparar com a gostosura da Paola na tv e a mulher em casa sofrendo pra cuidar de filho, trabalhando, ainda cuidando da casa... ele deseja a artista, mas conclui que ela é uma farsa e prefere a esposa.
Há algo muito errado nisso tudo. Primeiro que se você é um marido tão maravihoso, por que raios é só a esposa que tem 3 empregos (sim, galera, ser mãe dá um trabalho enorme! Não sou mãe mas conheço muitas)? E é só por isso que você valoriza sua esposa: pela capacidade dela em operar, em ser produtiva? Isso significa força necessariamente? Será que sua esposa não teria outras opções de escolha caso você ajudasse na limpeza, ou na cozinha ou cuidando da prole? Será que ela não seria ainda mais gostosa que a imagem da tv? Será que ela não ia ter mais tesão em você? Será que ela não fica pensando no carinha que trabalha na padaria enquanto vocês transam, porque ele é gentil e cuidadoso com ela naqueles 5 minutinhos diários em que ela vai comprar pão pro teu café da manhã?

Sabe, a gente nasce aberto pra amar no sentido real da coisa: amamos como aquela pessoa nos faz sentir, como ela nos mostra o que há de melhor em nossas almas. A gente ama não pela estética, mas porque podemos confiar na pessoa, amamos o toque, o gosto, o cheiro. Porque amar é algo que se faz por inteiro.  Mas passam a vida toda nos ensinando que o que importa é a estética, o plástico. É bom ver corpos através de telas ou impressos porque eles são esteticamente perfeitos. Agora quando o corpo é real, ele traz uma série de informações e bagagens difíceis de lidar, frágeis, desafiadoras.  E é cada uma dessas nuances que compõe um ser humano.  Mas também somos ensinados a gostar de padrões. Para mim, esse é o maior erro da humanidade. Endeusar coisas é complicado, garotada, a gente corre o risco de se tornar só mais um tijolinho ao invés de ser um universo.

Eu nunca tive amores por artistas no sentido físico. Acho muita gente linda maravilhosa, mas nunca paguei pau pra ninguém (tive uns platonismos, quem não teve?). Gosto de mentes, de gente desafiadora, que me faz pensar, que me instiga. Por que eu desejaria a minha esposa e não a moça da tv? Porque ela é uma pessoa real pra mim. Não acho que a Paola seja uma farsa: há gente de todo tipo. Quem sabe se minha esposa fosse uma dondoca louca eu a a amasse justamente por isso, ou se ela fosse uma moça simples do interior, delicada e tímida, se fosse desajeitada, se fosse meio maníaca, se não usasse nunca maquiagem, se tivesse vergonha da celulite... eu a amaria, em especial, por um motivo único, uma característica só dela, porque ela me mostrou isso e me deu de presente seu coração e confiança, porque somos íntimos e cúmplices.

Acho uma tristeza isso tudo, sabe? Querer sempre o que não é seu. É uma doença. Querer estar sempre disponível também pode mostrar um medo gigantesco de se deixar conhecer, de tentar descobrir essas peculiaridades e sair dessa padronagem alienante.

Aí a mulher desiste de chamar uma empregada pra ter um tempo livre porque o marido tá babando pra tv e pode querer a empregada, e continua trabalhando feito uma louca. Não tem tempo nem pra arranjar um amante que entenda que sexo não é só beleza, sexo é muito mais que isso.  Porque ela tem medo de fazer umas loucuras com o marido... vai que ele acha que ela andou treinando por aí, ou que andou vendo uns vídeos na internet. Ele não acha que isso sejam coisas pra mulher ver. E aí vira esse círculo vicioso em que tudo rola bem só no campo da imaginação: ele pensa na tv, ela neura sobre o que queria fazer e não pode, mas de vez em quando sonha com algum galã.. e no fim das contas nada disso é real, muito menos o sexo. E ela continua achando que ser mulher de verdade é essa escravidão de 3 turnos para o marido "provedor da casa", que acha que respeito é isso mesmo e tá tudo muito massa.

E daqui 10 anos alguém vai estar escrevendo algo muito parecido com o que vocês acabaram de ler, porque é muito difícil se desfazer de uma cultura assim, mas eu espero que você esteja vivendo um caso tórrido com seu amor (independente da idade de vocês, de como estão os corpos ou de quantos anos tem a união), cheio de sacanagem, orgasmos e risadas. E um bom vinho pra acompanhar.


Imagem: http://farm4.static.flickr.com/3823/10769465115_7b3fd35b62_m.jpg

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Leveza

A noite de quinta foi uma delícia. Traduzi uma parte de um artigo, comi uma torrada cheinha de salada preparada pelo marido (e parsa - a grafia disso é irrelevante), tomei banho e me arrumei. Como ele mesmo disse, eu estava leve. Venho me sentindo assim há alguns dias, apesar da TPM querida.
Fomos aproveitar a promoção da caipirinha dupla no nosso bar preferido. Que vibe boa a dessa noite.
Dormi pouco, pios tinha aula de manhã. Não tomei café, mas lembrei do hormônio da tireoide (alguém invente um subcutâneo de liberação lenta, please).
Na aula ganho um mimo de uma aluna amada, doce e dedicada. Está em frente aos livros do King. Um globinho de neve (glitter) que vai sempre me fazer lembrar dessa guria. Fiquei feliz. Depois notícias meio eca... a semana foi pesada. Aconteceu tanta coisa, falei de tanta coisa, liberei, absorvi. Passei o dia meio de ressaca, mas a noite dessa quinta foi a expansão da minha leveza interna.

À tarde resolvo me desconectar um pouco. Uma aluna desmarca pois está já de férias, curtindo o campo. Fez bem. Nada se compara à paz de estar em contato com a natureza e aqueles que amamos. Por isso, saí de casa mais tarde, rumando para um desses celeiros de produtos naturais. Precisamos de castanhas e passas e damascos e deliciosidades do tipo. Eu vestia meus sapatos de veludo vermelho, meio Dorothy, um vestido preto cheio de corações brancos, minha bolsa de cupcakes by Aline Galvão e um óculos estiloso. Nessas horas me pergunto quantos anos tenho e chego à conclusão de que tenho todas as idades juntas. 

Uma quadra depois, na esquina, avisto uma senhora com o braço imobilizado mas segurando uma sacolinha de farmácia com papeis, na outra mão uma bengala. Seu torso fazia um ângulo de 120 graus. Era fim de tarde e o trânsito estava intenso. 
Cheguei até ela, segurei sob o braço imobilizado e disse "Eu acompanho a senhora". 
Ela ergueu muito os olhos para encontrarem os meus. "Será que podemos ir?"
O motorista que liderava a fila de carros joga o braço pra fora e sinaliza que atravessemos. 
"Deus me coloca esses anjos no caminho. Faz 12 anos que estou toda quebrada, ninguém me cuida, fico sozinha. Esse Deus é muito bom, não é mesmo?"
"É, sim."  Cada uma de nós tem uma concepção diferente de deus. O meu tem letra minúscula sempre, mas isso não vem ao caso. Não digo nada sobre isso a ela, afinal, o bem é feito de coração e era isso que bastava.

Subo mais uma quadra com ela, no tempo dela, parando de quando em quando, ouvindo sua história, seus problemas médicos, a história sobre o trágico dia em que ela foi quebrada (pernas e um braço - que jamais ficou bom) há 12 anos, o marido falecido... a farmácia diária, exames mensais e quase 90 anos de vida. Ela gosta da vida, apesar de tudo. Reza muito, afinal é isso que tem para fazer já que mal caminha. O trajeto era de volta do médico. Não sei desde onde ela caminhava. Atravessei mais duas ruas com ela. Notei que não usa aparelho, mas tem uma audição exemplar. Eu vou estar surda na idade dela, não totalmente, mas surda.

Chegando à porta de entrada do prédio em que reside, falamos do cuidado dos filhos e parentes com os mais velhos. Eu penso que a vida é muito louca e ninguém sabe o que vai acontecer. Ela cuidou de muita gente, mesmo depois de estar com dificuldades de se movimentar. Eu digo "Depois fazem velório e vai todo mundo chorar a perda..." e ela "mas nem cuidaram da pessoa, nem deram bola. Faz ó que eu não vou a velório. Eu já disse que não quero velório. Que me botem no caixão e me enterrem direto. Velar  pra quê?" "Eu também não quero e  não gosto. É cheio de gente falsa e o pobre do defunto fica lá exposto."  Ela dá uma risada gostosa. Me indica o número do apartamento. Pergunto o nome dela: Eva.  "Desse nome você não vai esquecer. Não tem muita Eva por aí." "É claro que nunca vou me esquecer do teu nome." "E o teu?"  "Carolina." "Eu gosto do nome Carolina. Tenho uma bisneta. Quando estiver por aí pode vir aqui. Você é muito linda, sabia? Querida!!! Continue sempre assim muito querida. Ganhou o dia de trazer uma velha pela rua, hahaha"  "Ganhei mesmo, ouvi muitas histórias."  "Deus te abençoe. Você sabe que é muito linda e querida né." Vi que os olhos estavam brilhando de lágrimas felizes. "Deus te abençoe e até logo."

Tem aquele dia em que a gente encontra oportunidades. Agradeço aos motoristas que pararam para que atravessássemos em segurança. E sinto muito pelas mentes vazias que riram de mim, por estar acompanhando uma velha... uma velha de uma vida sofrida, uma velha forte, benevolente e corajosa. 
Estou aqui cheia de coisas para traduzir, de aulas para preparar, tenho que lavar roupa e dar uma geral na casa, mas eu precisava contar essa história.  Eu nunca direi à Eva, mas deus pra mim são esses encontros entre almas que se ajudam, seja no simples atravessar a rua, seja mostrando um pouco da história de vida que ensina tanto em tão pouco tempo. Geralmente chego ao trabalho em 5 minutos. Hoje levei 25, mas encontrei um pouquinho de deus, encontrei uma alma que precisava de um cafuné.... e eu não sabia, mas precisava ver a felicidade nos olhos dela, daquela alma dolorida. Obrigada, Eva, por trazer paz pra dentro de mim.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Um post sobre os prazeres da vida

Bom dia, boa tarde, boa noite. Hoje o post não tem nada de "antissocial" exceto o fato de amarmos viajar sozinhos, como dois lobos solitários.

Além do mais, essa viagem foi em comemoração ao nosso aniversário de 7 anos juntos e aos 3 em que vivemos sob o mesmo teto e em uma sintonia fantástica.


Começamos a planejar há mais de 4 meses, quando decidimos ver uma de nossas bandas preferidas e, 23 minutos após o início das vendas dos ingressos, consegui comprar 2 pra pista da geral. Confesso que vi os meninos no palco, mas nada muito "omg, olha eles lá"... Tava mais pra "olha lá, desse micro spot vc consegue ver cada um deles por vez, se der chance".... mas não foi caro e o som é impecável.

Mas vamos começar do princípio: comidas, claro. Somos foodies por natureza, então pesquisamos através de um guia da Veja (que acidentalmente achamos no mercado pela metade do preço), em vídeos no Youtube, no Foursquare e no guia do Google Maps.

SEXTA
Chegamos em Porto Alegre e fomos direto almoçar no Cia da Picanha (Gen. Lima e Silva, 85).

A rua tem uma magia que nasceu quando eu era criança. Meu ex tio morava  na Lima e Silva e eu passei boa parte da minha infância por ali, na Cidade Baixa e na Redenção.... Então me sinto em casa. É aconchegante comer na rua -  a maioria dos estabelecimentos dispõe dessa maravilha- porque podemos ver as pessoas passando e, se você está tentando decidir o que comer é possível ver os pratos chegando nas mesas dos clientes.

A cerveja estava estupidamente gelada. O atendimento foi rápido, mas o garçom errou o pedido... ouviu errado, segundo ele. Ficamos esperando ele trazer nosso espetinho de coração à milanesa.... vamos ter que voltar!

Esse prato alimenta duas pessoas com fome média. O arroz eu deixei quase todo apesar de estar muito bom. Não me interesso em comer arroz (a não ser o meu ou no sushi), imagina arroz de restaurante... Como estava parecidíssimo com o meu, pedi para levar com uma coxa de frango e um pouco de mandioca frita e uma colherada de maionese que sobrou. Sim.. eu comi menos da metade do prato e já estava cheia.



Não tive cara de tirar foto de uma mesa de advogados perto de nós que se esbaldou em picanhas, parmegianas e massas cheirosas e lindas.  

Ponto super importante: o cafezinho de cortesia no balcão era bom, acreditam? Bom de verdade.


Fomos para o hotel esticar as pernas e renovar as energias pra começar a caminhar desesperadamente. 

Fomos ao Centro, em direção aos camelôs, na intenção de mais tarde comer um shawarma. Eu não quis porque ainda estava cheia e o cheiro da praça de alimentação me enojou. Mas ganhei o dia quando vi essa banca:


Depois de quilômetros de peregrinação, risadas e conversas,uma parada no Mercado:

A Banca do  Holandês sempre com ótimo atendimento e produtos de excelente qualidade! Copa e queijo montanhês pra beliscar no hotel.


 Voltamos descansar e discutir a programação da noite. Mr. Chau Noodles foi a pedida:


O primeiro é de camarão com legumes, amendoim e gergelim. O segundo de carne, cebola, alho e salsinha. O pecado é a quantidade de sal na preparação. E sal em excesso não é nada legal. Já nos brochou uma segunda tentativa, apesar do lugar ser um charme, bem romântico, cozy... o atendimento e a rapidez são impressionantes. Mas chegamos à conclusão de que o nosso de casa é beeeem melhor. Porque o Yakisoba deve te dar umas barrinhas de vida, sabe? Você tem que comer e pensar que abriu 10 baús de mana... No Chau, abri só 1.

 Love Shot: Sobremesa gostosa e na medida.


SÁBADO
No sábado de manhã comemos aquela copa com queijo, pão e uma torta maravilhosa de côco duma padaria do Mercado Público que nunca lembro o nome, mas o Google salva: Padaria Pão de Açúcar
Tudo vale a pena lá.

E o café??? Como é que eu vou viver sem????  
Achamos um pertinho "de casa" na Rua da República... que na verdade é um salão de beleza, mas...


Não é a coisa mais fofa desse mundo? Trendy Hair, bem no meio da quadra!


Nossa intenção era ir almoçar no Muralha da China (e avaliar se era mesmo tão bom quanto a propaganda), mas a fila estava gigantesca. Então lembramos de um lugar nada a ver na João Pessoa. Nada a ver por quê?   Parece um bolicho, mas na entrada tem uma churrasqueira emanado os aromas mais seduzentes ao gaúcho: carnes diversas tostando lentamente em sal, temperos e fumaça de carvão.  

Buffet livre com um taco de carne e um pedaço de linguiça apimentada a 14,90:

Com duas carnes (aqui o extra pra nós dois) a 17,00:


Fachada:


Pensa numa carne desmanchando de boa, sal na medida, perfume.... mouthgasm absoluto. A salada era novinha, a massa caseira no ponto perfeito de cozimento. O molho parecia 8 anos, mas estava saborosíssimo e a polenta era caseira e bem temperada, não aquela coisa insossa que vem só pra te encher a pança.  O atendimento foi o melhor de todos. Nosso garçom é também músico (já tocou muito no Ataque Colorado), falou bem de Passo Fundo e nos fez mais felizes com sua simplicidade, gentileza e bom humor. Valeu Leandro! Assim que der voltamos ao Rok's!

Detalhes: fica em frente à Redenção e é possível ver os pedalinhos pra lá e pra cá. É frequentado por pessoas de diferentes classes sociais, que recebem o mesmo exemplar tratamento. Medalha de Ouro!

Breve videozinho tosco... com meu sotaque exacerbado pelo mimicking automático do qual sofro:



Então era hora de dormir pra ficar de pé naquela muvuca de gente que seria o show.... 

MAS antes de rumar pro Pepsi On Stage precisávamos jantar. E lá formos, perneando, pra lomba da Ramiro Barcelos no belíssimo Mao Sut. O preço está de acordo com a qualidade dos pratos e com o ambiente. Estava cheio, mas mesmo assim, nossa comida veio em inexplicáveis 5 minutos. Comemos no deck, e apesar do vento, tivemos um jantar maravilhoso. Voltaremos sempre que possível experimentar toooooodos os pratos.

Torradinhas (Loi Krathong) de shitaque com um mix de amor asiático:



Wontons (Phi Phi) de camarão fresco (aquele adocicadinho característico) com um molhinho de abacaxi apimentado, servido na concha, que eu comeria todo dia:




No vidrinho uma pimenta diretamente da Tailândia!  
Conclusão: 1) Obrigada, Asiáticos, por uma culinária maravilhosa. Jamais me cansarei de comidas asiáticas. 2) Pimenta é sempre bom.   3) Temos uma ótima tolerância (e apreço) a pratos bem apimentados.

Devo dizer que fiquei APAVORADA, EMBASBACADA, FELIZ, BLISSFUL com a rapidez das cozinhas em Porto Alegre. É incrível mesmo como todos os nossos pedidos vieram rápido. Fico me perguntando o que há de errado nas cozinhas daqui que demoram tanto...

Agora sim: rumo ao QUEENS OF THE STONE AGE!!!!

Faz tantos anos que curto QOTSA que nem sei. Depois o Vini me apresentou Kyuus... E enfim, Desert Sessions é paixão... mas não me emociono muito com Eagles of Death Metal nem Them Crooked Vultures.   

Uma coisa que acho imprescindível em um show é ir porque você curte a banda como um todo, desde álbuns antigos ao mais novo. Não dá pra ir num show se você conhece só o último trabalho da banda. Fica em casa, então.

Tava cheio de gente que deveria ter ficado em casa.... junto com outras categorias de pessoas que deviam ser proibidas de ir a shows.... mas isso é assunto pra outro dia.





Josh é bem humorado, fala bem com o povo e canta as minas todas juntas de cima do palco.
O som limpo, tocam maravilhosamente ao vivo... e é um show longo.

Queria ter ficado mais perto, mas o importante é que eu estava lá com quem mais me interessa nessa vida. 

Uma da manhã estávamos de volta à Cidade Baixa, que estava sem luz. 

DOMINGO
Acordamos e arrumamos tudo. Fomos ao Brique ver coisas aleatórias.  Finalmente pegamos o carro, que ficou o tempo todo escondidinho num estacionamento perto do Rok's, e seguimos pra casa, podres de cansados. Felizmente a chuva veio já no percurso final da estrada.  

Comprei essas colherinhas lindinhas - tenho uma tara por colheres.


Dormi antes das 21h  no sofá. 


Em breve postaremos mais opiniões sobre aventuras gastronômicas e lugares interessantes.

Você já foi a algum desses lugares? Diz aí o que achou!

domingo, 29 de junho de 2014

Amor e sexo


Hoje está aquele domingo perfeito de certa forma: há poucos carros na rua, meu café está quente e gostoso, da sala ouço o Vini dar umas roncadinhas de sono profundo, dos fundos ouço os pássaros livres conversarem com as calopsitas do vizinho. 
Gosto de acordar mais cedo aos domingos e escrever. Às vezes me esqueço o quanto aprecio ficar sozinha para ouvir os sons do mundo e da minha cabeça. 

A chuva não pára e assola muitas comunidades no meu estado, mas hoje a chuva tem um belo som, como um trance que me embala.
Há pouco olhava no Catraca Livre as fotos de casais homossexuais do século passado. Um trabalho belíssimo de Sebastien Liftshitz . Algumas fotos me deixaram verdadeiramente emocionada, porque é possível captar amor e cumplicidade, entrega e satisfação. É quase possível tocar o sentimento que há ente os casais. Há uma completude naqueles olhares, na linguagem corporal.

Sei que bato nessa tecla muitas vezes, mas sou uma defensora do amor. Não consigo compreender como é possível alguém achar o amor feio, estranho, anormal. O amor é uma dança que se descobre a cada dia. É um livro daqueles que você não consegue largar nunca, que quer ler e reler infinitamente. O amor é ser livre com outra pessoa: livre de padrões, de rótulos, de preconceitos, de convenções sociais. O amor é a completa absolvição dos pecados, é luxúria sem culpa, tesão carinhoso, cuidado e zelo.

E aquela historinha de "o amor não é isso.. o amor é outra coisa", na real é: o amor é infinitas coisas, mas todas boas, que engrandecem, embelezam, trazem sorrisos e segurança. O amor é segurança. Mas para cada um o amor se mostra de um jeito diferente, porque o amor é único. O jeito que você ama João pode ser diferente do jeito que amou Pedro, e não tem nada a ver com o jeito do amor pela irmã ou pelo filho. O amor é infinito.

Então, se o amor é um sentimento que traz segurança, alegrias, liberdade e infinitude como é que eu vou me meter no amor dos outros? Como é que eu vou achar que o amor dos outros vai ser igual ao meu? Ou que o meu será igual ao dos outros?

A questão não é essa? A questão é sexo? Não me diga que você faz só aquele sexo basiquinho, sempre igual... preliminares, uma posição só, gozo de um dos dois ou dos dois (mas nem sempre)? Entendo sua frustração. Entendo sua chatice. É falta de criatividade, é falta de diversão, falta de prazer nesse corpo. Que pena! Você poderia estar vivendo num mundo exclusivamente seu, cheio de delícias e intimidades. Porque NINGUÉM precisa saber o que você faz, ninguém precisa julgar sua vida sexual. Sexo é uma terra mágica onde se pode brincar de tudo, desde que seja o que os participantes desejam. Pode ser em duplas, trios... quem quer brincar decide. Pode ter objetos, roupas, fetiches... pode envolver lugares, luzes, aromas, sabores. Pode ter teatrinho e todo tipo de encenação. É pura experimentação. Se não der certo, não se abale, um abraço e um sorriso de cumplicidade consertam tudo. 

Eu desejo que todos tenham ótimas experiências sexuais sempre. Porque o importante é que não sejam traumáticas a nenhuma das partes (especialmente das íntimas). Desejo mais ainda que parem de julgar as práticas dos outros.. e o amor dos outros. Lembrem-se: amor e sexo são únicos! Não é pra ficar comparando. Isso azeda, estraga, te envenena, você se rala... porque só você se prejudica por ficar julgando. Enquanto você fica preso às convenções puritaninhas e sem graça, pessoas inteligentes vivem felizes, realizadas e bem servidas, muito bem, obrigada.

Sabe qual o segredo da vida: cada um cuida da sua e deseja que todos encontrem a felicidade. Por que você não tenta? 

terça-feira, 3 de junho de 2014

Sobre uma certa liberdade

É sábado. Oito e meia. Me preparo para entrar em uma sala de cirurgia para a retirada de um órgão. Não, não é doação. Não estou doente. Não é vesícula. É um órgão muito controverso, e não é o coração, nem o cérebro. Sem eles não poderia viver. Não é nenhum pulmão, nem rim. É meu útero.


Tenho 27 anos e não tenho filhos. Não terei filhos biológicos e não adotarei. Não sou um monstro. Não sou homem. Não sou homossexual, não sou bissexual. Sou hétero, casada, sem aspirações para a maternidade.  Sou livre e acredito na humanidade.

Há algum tempo sigo no Facebook a Travesti Reflexiva, um ser humano que trocou de sexo por ter nascido com sua alma presa em um corpo errado. Essa nova mulher recebe mensagens de ódio diárias, de pessoas que não fazem nada melhor da vida que regular a vida dos outros. Abaixo segue algo que também me diz respeito:

Não sou travesti. Nasci no corpo que deveria nascer. Ninguém nunca me disse que, por ser mulher, eu deveria obrigatoriamente ser mãe. Ninguém me disse diretamente. Menstruei aos 14 anos.  Minha menstruação sempre foi uma desordem. Sangrava 15 dias seguidos, parava 15 e sangrava de novo. às vezes ficava 3 dias, passava o mês e nada. Até que vinha um rio e eu tinha que jogar fora calcinhas lindas. Poucos anos depois resolvi que não podia mais menstruar. Ficava com nojo, sentia cheiro de sangue e já me irritava. Parei. Tomei pílula contínua para não descer mais. Bom é que elas tratavam meus ovários. Quer dizer, faziam de conta que tratavam. Tive que começar com anticoncepcional injetável. Meu pai aplicava em mim, com suas grandes mãos de anjo.  Desse medicamento ganhei muita celulite e estrias. Mas isso não me incomoda, pois meus ovários estavam curados.  Voltei a tomar anti via oral. Me esquecia. Meu ciclo "loqueava" de novo. Foi aí que troquei de ginecologista e conheci a fada da minha felicidade: uma mulher linda, sempre envolta em uma aura jovem e cintilante. Ela me apresentou o Myrena - um DIU de progesterona que, além de me impedir de engravidar, faria com que eu não menstruasse por 5 anos sem nenhum efeito colateral a não ser a reconstrução do meu sistema, sem interferências hormonais na corrente sanguínea, sem riscos de embolia, me protegendo contra endometriose. É a glória esse Myrena. Recomendo a todas as mulheres que prezam por sua saúde.

Me esqueci de falar que tenho Tireoidite de Hashimoto: uma condição em que meu organismo acredita que minha tireoide é um corpo estranho e, portanto, deve ser bombardeado até sua morte.Conversando com um médico (ex aluno meu) concluímos que quem tem Hashimoto certamente desenvolverá nódulos em seus tecidos glandulares. Uma vez apresentei um nódulo no rim, agora tenho um na própria tireoide e desenvolvi miomas uterinos há mais de 5 anos. E é essa história que quero contar:

Tive 3 namorados na vida. O primeiro não conta. eu era uma guriazinha tola. O segundo durou 4 anos, mas não pensava em casar com ele. O terceiro é meu marido. Não somos casados na igreja nem no papel. Somos casados por contratos verbais selados todos os dias, às vezes várias vezes por dia. Estamos juntos há quase 7 anos. Nossa conexão foi instantânea e logo percebi que era o homem com quem eu iria passar o resto da minha vida, apaixonada como uma garotinha, mas amadurecendo constantemente, me tornando uma mulher.

Sempre vou aos médicos. Gosto de saber da minha saúde, gosto de conversar com médicos em geral. Minha tia é dermato. Passei minha vida lendo os livros dela, conversando sobre enfermidades e o corpo. Fazia uns 2 anos de namoro e fui numa das consultas com a ginecologista. Ultrassom pra ver se o DIU estava no lugar certo. Estava. Mas ele tinha uns amigos.. uns miomas. Passei 2 anos e meio gestando esses nódulos, com cólicas, desconforto, sangramentos, choro, muito choro. Tive que fazer uma cesariana e retirei dois grandes, um pequenos e inúmeros foram cauterizados. Eles equivaliam a um bebê de 3-4 meses de gestação.

No quarto do hospital a fada veio me visitar. Eu tinha 25 anos, época em que os hormônios ficam doidos para gestar. Ela me disse que eu deveria escolher: ou engravidava dali 1 ou 2 anos, ou desistia de ser mãe. Logo troquei de DIU pois o outro tinha expirado seus 5 anos.


Desistir? Nunca quis! Mas meus hormônios pensaram no meu namorado que era ótimo com crianças. Ele tinha cara de pai. Seria um pai fantástico. E como eu queria ver a nossa combinação em um bebê. Seria o bebê mais lindo do mundo.

Chorei meses. Passou. 

Um ano depois da cirurgia lá fui eu fazer ultrassom. 3 novos filhotes. Eu poderia ter engravidado ali... Teria um bebê e os miomas crescendo, correndo o risco de ter o útero partido, ou uma gravidez de risco.... Deixei que crescessem. Eu já tinha recuperado meus sentidos e minhas ânsias por maternidade sumiram.

Hoje tenho 7 miomas e um ovário aumentado. Meu útero tem 222 cm³ - quando o normal é de 50 a 90.
Vou tirar meu útero e minhas trompas. 

Vou perder o órgão que me faz mulher. Não é isso que as pessoas acham das travestis: se não tem útero não é mulher. Nunca vai gerar um filho!

Não adianta. Odeio rotina, cocô me dá náusea, durmo deitada no sofá no meio do filme, meu sono é pesado. É egoísmo? Acho que não. Tem tanta gente tendo filho nesse mundo. Acho que se eu não tiver, o planeta vai me agradecer. Assim dou espaço para outras mulheres que desejam ser mães, que tenham essa vocação de verdade. 
Já tenho meus filhos que não gerei: são meus alunos, amigos e amigas que me pedem conselhos, que choram, que contam problemas, pessoas que encorajo... a gente acaba sendo mãe de diversas formas.

Mas não tenho útero. Não gestarei nem menstruarei. Sou travesti, então. Com muito orgulho.

Sou livre para decidir quem quero ser.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Bê óh

Venho por meio deste reclamar da minha vizinha de cima.
Ela tem tido um comportamento muito irritante desde que veio morar no prédio.
No início, como eu imagino, ela era casada com um homem com quem não fazia nada... às vezes penso que era marido, às vezes penso que era irmão. Não sei o que era dela.
Sei que nos dias em que ele ia trabalhar, às 23h em ponto, o interfone tocava. Chamava 2x e ela ia correndo atender. Corria para a porta de entrada do aprtamento e esperava por ele. Isso era geralmente depois de o menino - filho dela? filho de alguém mas ela que cuida?-  parava de andar de motoca pela sala. Ela corria. Ele entrava e logo depois a cama de metal batia no chão por consideráveis 10 minutos e parava.. E eu dormia.
Mas como eu sei disso? Porque eu tenho ouvidos razoáveis... Não são bons, não. São muitos anos de fones no volume máximo. A delícia de som que a Samsung insiste em me dizer ser ruim para mim, mas eu desobedeço... Tenho ouvidos razoáveis porque o volume importa, que me desculpem, mas importa. Enfim, a moça aqui de cima tem cascos, pois pisa sempre de forma muito audível.

E o cara que morava com ela? Eu acho que eles nem conversavam, na boa, Acho que mal se viam. Era um silêncio. A não ser quando ela recebia o motoqueiro. Isso eu descobri num dia em que fui levar para o emu pai um vidro de ovinhos de codorna que o Vini tinha feito. O motoqueiro estava lá ligando, exigindo que ela atendesse o interfone e abrisse a porta para ele subir. Assim ela fez.

O outro cara se mudou logo. Sumiu o carro. Veo a moto. Veio o sexo sobre a minha cabeça antes de dormir. Nada que me tirasse o sono. Ficava feliz por eles. Se curtiam. Eu achava bom. Sempre acho bom que as pessoas se curtam.. e se entendam e façam suas vidas felizes e leves e signifcativas...

Eles brigam agora. Brigam tanto que uma grande amiga estava aqui um dia e tivemos que parara de conversar pois os gritos deles ecoavam nas paredes do prédio da frente e podíamos ouvir boa parte das reclamações.

Todas as noites ouço xingamentos, portas batendo, gritos, gente correndo, coisas caindo (?)

Ainda existe sexo. Geralmente lá pelas 3 da manhã. Tenho dormido tarde, eu sei. às vezes as brigas deles me mantém acordada, às vezes é a falta de sono.

Entrei no elevador come ele ontem. Achei melhor não falar nada. Ele fala "oiei lá fora e vi que vinha tromenta, mas saí de moto e mi moiei tudu". E eu penso que não sei o que que rola no apê em cima do meu.

Vou escrever ao síndico. Mas algo me diz que vou continuar ouvindo ela caminhar pela casa, pois bate os calcanhares no chão sempre que caminha. Seiq eu eles vão brigar. Sei la´o que aconteceu com as crianças..esqueci de falar mas antes eram duas e agora nem sei se o menino está motrando aqui também.

Às vezes acho que eles são uma alucinação. Não entendo mandar umcara embora pra ficar com um com quem se briga o tempo todo.. Nem entendo o cara ir embora porque você não gosta dele e se sentir culpada e se martirizar com um novo. Não entendo uniões por conveniência, nem por dote, nem por promessa. Não entendo agressão física por falta de diálogo, não entendo dormir junto sem amar, nem transar por meses sem amar.

Não sei a quem devo escrever. Talvez eu escreva pra ela. Talvez ela rasgue e faça mais barulho. Talvez ela me (se) entenda..O.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A arte de mudar


Saímos para jantar. Inicialmente não temos rumo. Gostamos disso às vezes pois aproveitamos para dar uma caminhada ou uma volta de carro. Bem, é certo que muitas vezes acabamos tendo uma ideia de algo realmente saboroso, saudável e limpo - coisa difícil de encontrar numa noite de qualquer dia da semana nessa cidade.


Somos muito companheiros hoje. 'Hoje' na frase funciona sintaticamente como advérbio de tempo, pressupondo que antes não o éramos. Concluindo: apliquei bem o advérbio: nos tornamos companheiros ao longo desses 6 anos que nos unem. 

Resolvemos ir a um lugar cheio, frequentado por todo tipo de gente. Noite de estudos antropológicos, o vouyerismo das relações humanas sem ensaio ou fakeness, sem aviso. Um estudo ao natural.  Há muitas famílias, alguns que pressupomos serem somente amigos, outros talvez colgas de trabalho, alguns outcasts se sentindo à vontade (como isso me deixa feliz!) e mais dois casais além de nós. 

Enquanto esperávamos nossa pizza, que surpreendentemente veio rápido e mudava somente o sabor da doce em relação às meninas-que-beijam-meninas ao nosso lado. Nós preferimos banana nevada; elas, morango com chocolate. É, banana não é muito convidativa.... observávamos todos felizes, exceto os casais. 

Estavam sentados em mesas diferentes. Elas olhavam incessantemente para seus celulares,creio que na Internet. Eles olhavam para a tv sem prestar atenção, ou olhavam as mãos, ou olhavam o nada, a mesa vermelha, difundindo o olhar num emaranhado de pixels iguais.

Uma das moças estudou na mesma escola que eu. O Vini me disse que eles não combinavam em nada. Eu repliquei dizendo que não num primeiro olhar, mas que as caras-de-nada deles os transformavam em um casal parecido. O outro casal vez que outra trocava algumas palavras. Eles não se tocavam, não sorriam, não exprimiam nenhuma reação que não  a cara de paisagem, poker faces tristes e vazias.

Talvez eles não sejam assim, mas o retrato daquele jantar me deixou irritada. tinha vontade de ir nas mesas e dizer: conversem um com o outro, se descubram, se apreciem, riam, chorem, mas por favor, interajam!!!!  Há quem diga que isso existe em função da internet móvel. Mas e antes? Ahhh, antes era a tv.. as e antes da tv? Ahh, antes da tv a mulher era a inferior... E antes disso?? Antes eram homens das cavernas???

Não. Nenhuma dessas respostas me cabe. Não consigo conceber nenhuma delas como verdadeira. Temos como verdade de que o ser humano é um ser superior a todos os outros. Estamos no topo da cadeia alimentar, não estamos? Somos os únicos dotados de polegares opositores, não somos? Somente nós somos capazes de pensar de forma complexa, o que garantiu a criação de não só uma, mas inúmeras linguagens e códigos que nos permitem transitar e nos comunicar com qualquer pessoa ao redor do mundo. Então, porque não conversamos com a pessoa que é nossa companheira? Que supostamente nos ama por inteiro  por quem somos, por como somos???? 



Como eu disse antes, fomos mudando aos poucos. Fomos nos aprendendo. Eu fui aprendendo quem eu sou, aprendendo a forma como eu mudo,  forma como me transformo diante das situações que enfrento. Ele foi fazendo o mesmo. E fui aprendendo ele e ela a mim. Um sendo suporte do outro, sempre buscando uma evolução emocional e intelectual. Confesso que minha maior dificuldade foi aprender a conversar, a não ter medo de ser julgada, ou de ser abandonada. Demorei muito tempo, mas aprendi. E esse aprendizado me proporcionou a maior sensação de liberdade que eu já senti.

Antes iniciei esse texto falando de uma amada Gloss - uma jovem revista glam-fútil-interessante-com-swag que acabou falecendo (irônico, não?)- em que a colunista expunha um caso de amor que nasceu de uma amizade. Ela conta que conversava muito com esse cara, falava de seus problemas, de suas vergonhas, de seus medos e de coisas positivas. Ele acabou se apaixonando por ela, pois ela é uma mulher interessante e verdadeira. E ela diz que pode sentir-se amada por inteiro, pois não inventou um passado a fim de ser amada e aceita. E essa é a liberdade que eu acho que todas as pessoas buscam: a liberdade de ser você mesmo.
Acho que não só os casais, mas as pessoas todas num geral deveriam repesar em todas as suas relações, em qual o valor de um julgamento, ou quanto pesa para si ser quem se é de verdade. Porque dói manter uma imagem que não reflete o real. Não é como Macabéa, privada de se descobrir, privada de existir, privada por alienados. É a própria privação. É o encarceramento de um potencial imensurável, pois jamais será explorado. É como arrancar os próprios lhos, como deixar todos os dias passarem sem ter vivido.

Acho que não só os casais, mas as pessoas todas num geral deveriam repesar em todas as suas relações, em qual o valor de um julgamento, ou quanto pesa para si ser quem se é de verdade. Porque dói manter uma imagem que não reflete o real. Não é como Macabéa, privada de se descobrir, privada de existir, privada por alienados. É a própria privação. É o encarceramento de um potencial imensurável, pois jamais será explorado. É como arrancar os próprios lhos, como deixar todos os dias passarem sem ter vivido.


Conforme fomos crescendo e nos amando cada vez mais, depois de extensas brigas e discussões, choro e desespero, descobrimos qe podemos ser quem somos um para o outro. a vida é uma só - eu sempre digo-, mas então por que raios eu não aproveitava essa vida? Por que eu insistia em ser quem eu achava que ele queria que eu fosse? Por que não falava quando algo me perturbava???  Eu sempre fui a amiga psicóloga, a amiga que não julga, mas ajuda.... Por que eu não conseguia ser assim? Eu não tinha segurança? Eu não sei exatamente como, mas eu mudei. Eu mudei para algo de que me orgulho, algo que amo, que me deixa tranquila. Não tenho mais nóias, nem ciúmes sem pé nem cabeça.


A beleza da vida está na mudança. A capacidade de compreender e apreender o novo é o segredo. Não sei.o que seria de mim se eu não mudasse, se tivesse permsnecido sempre com a mesma ideia do mundo, ou pior: com a mesma ideia de mim mesma. Seria como morrer e continuar vivendo. Afinal, a vida trata de nascimentos, especialmente daqueles de nós por nós mesmos. 

Tenha coragem.Afinal, a vida é uma só. 








[Esse texto foi escrito ao som de: nenhuma música- somente o silêncio interno e os grilos do terrenos baldio ao lado - paz]

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Feliz dia dos professores

Noite passada fui a um evento destinado à minha classe. Bom, vamos começar pelo princípio: como assim classe? Classe operária? Classe de classudo? Classe de turma? Acho que temos que parar com essa denominação, porque, claramente, nós como educadores, não devemos generalizar, mas ter um olhar único sobre cada um de nossos alunos, simplesmente pelo fato de eles serem indivíduos únicos, cada um co sua bagagem, seu talentos e dificuldades. Muitos professores não têm classe nenhuma: ou tem a mente fechada, ou são daqueles que dizem que o problema da compreensão de um aluno em entender qualquer questão (de qualquer matéria) é do professor de Língua Portuguesa - convenhamos: burro esse professor que não ensinou seu aluno a interpretar suas próprias questões!!! - Outros não tem classe porque são os julgadores... julgam tudo nos colegas: suas práticas, sua maneira de vestir, sua fala... e cometem erros crassos em suas próprias salas de aula. E, finalmente, não somos classe- turma pois somos diferentes. Nosso background é diferente, nossas gerações são diferentes, nossas crenças quanto a ensino e aprendizagem são diferentes, nossos interesses, nossas vontades, nossa criança interior, nossos laços, nossa maneira de ver o mundo... temos nossa classe no meio de tantos, mas não somos todos uma classe.  Acho que esse é um erro também, da nossa configuração escolar.... mas isso é tema para um texto mais adiante, mais extenso e ainda cheio de duvidas.

Mas continuando ao que eu estava querendo falar sobre: a palestra de ontem. Enquanto a professora falava, dava exemplos e dizia que não devemos simplesmente ensinar a fazer. Isso na verdade é habilidade. Mas que devemos ensinar competência,ou seja, saber fazer. Eu olhava em volta e via meus professores do IMD, hoje colegas de trabalho, e pensava em como eu tive a sorte de ter tantos bons mestres. Ao meu lado sentavam duas professoras, uma de Ciências e outra de História e, na fileira atrás ma de Matemática. Foram minhas professoras pela primeira vez na quarta e sétima série. Lembro das aulas delas, lembro do que diziam e de onde nos levavam, lembro dos mapas, dos desenhos no quadro, das brincadeiras, das músicas... da voz delas falando comigo. Espalhados pelo auditório havia mais professores meus: de Ed. Física, Ensino Religioso (as manhãs de formação, falando sobre o bem viver entre as pessoas, sempre em algum lugar junto à natureza e com lanche comunitário!) , Informática, Sociologia, Geografia (ah, como eu lembro das aulas de campo! Como me instigaram e me fizeram feliz), Literatura (com muita cantoria, leitura)..... não vi muitos dos meus profs, mas vejo alguns diariamente nas escolas em que sou professora, ou nos conselhos de classe, ou nas reuniões pedagógicas. E fico pensando que, com a exceção de poucos, tive guias que me ajudaram a ter competência. Me ajudaram a ser uma pessoa mais ampla e completa pois me ensinaram sobre mim mesma, me mostraram suas paixões e me deixaram escolher as minhas.


A professora palestrante falou algo muito importante: os alunos não são filhos nossos, mas da escola. É verdade. O tempo livre que andei pelo Menino Deus me transformou também. Poder ir sozinha à biblioteca e sentar no chão, entre as estantes e poder escolher o livro que eu quisesse, no meu tempo, sem alguém me apressando fez toda a diferença... ou ficar lá lendo, sozinha.. Ahh!!! Delícia.. Ou ir no pátio interno, no orquidário do Pe. Oscar, ver os porquinhos da índia, as galinhas, os coelhos... Na minha época era proibido ir lá. Mas eu ia, não porque não podia, mas porque encontrava paz, sossego, calma para minha cabeça. minha sala era cheia de conversadores (eu inclusive). O IMD é mágico também por causa do mato. Eu ia pro mato no turno inverso, comia frutas silvestres, achava umas borboletas gigantes, via uns bichos, curtia o cheiro da vegetação, a luz do sol passando por entre as árvores. No 3º ano tive uma colga intercambista da Alemanha.. a gente matou aula um da nesse mato, o Padre foi atrás de nós. Rimos muito!!!! Eu também ia de tarde comer jabuticaba. Me sujava de barro, de suco de jabuticaba e de cachorro, porque brincava com os da escola.... nossa, era uma aventura atrás da outra... são incontáveis causos....

E pensando em tudo isso, somado às pessoas que fizeram parte disso, desde as tias da limpeza, as tias do bar, os funcionários e professores, sei que minha formação foi completa porque, acima de tudo, foi humana. Nunca fui barrada de dizer minhas opiniões. Nunca fui barrada de fazer perguntas, por mais idiotas que pudessem ser. Sempre fui incentivada a explorar minha criatividade e a fazer coisas novas. Sempre fui tratada de forma única e com muito carinho, atenção e respeito.


É claro que não posso, erroneamente, dar glórias somente à minha escola de criação. Ela fez parte da fase mais intensa de aprendizado da minha vida. Minhas professoras do pré à 3ª série me ensinaram com precisão e beleza. As e os profs de ensino fundamental me instigaram muito e os de ensino médio me fizeram descobrir quem era e quem queria ser. A faculdade me trouxe um insight mais intenso, numa busca sobre o que realmente me interessava para a vida. Acontece que não... não é só a língua que me interessa... e isso é culpa da escola, que me tornou um diamante multifacetado e plural, sempre em busca de mais e mais, cheio de interesses sobre diversas coisas. Na faculdade pude descobrir um outro lado meu e um outro lado do que significa ser professor.

Descobri que professores são pessoas comuns, que trabalham muito em prol de um mundo habitado por pessoas mais inteligentes, capacitadas, interessantes, multifacetadas e plurais, pessoas que saibam ler o mundo de diversas formas, de diversos ângulos.   Depois comecei a trabalhar de verdade e tive a oportunidade de conhecer colegas maravilhosas, com muito a ensinar a mim e a todos. Aprendi e continuo aprendendo muito com meus antigos e novos colegas e professores.

Neste dia que comemora nossa existência, quero dar graças a todos os professores e professoras que passaram neste mundo e ainda vão passar para tocar a alma de pelo menos um ser humano e, assim, transformar o mundo. Porque acredito que o que nos move é o saber, é o conhecer, o compreender tudo que nos for tangível, seja de forma física, psíquica, emocional, de comunicação ou de qualquer outra forma de interação. E é necessário muito amor para ensinar isso aos outros. Obrigada a todos os que me ensinaram algo e me constituíram até o presente momento. Obrigada por compartilharem esse amor.


Feliz dia a todos, por mais que não sejam professores de profissão, mas sejam por natureza.

Feliz dia dos professores!





sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Se isso é ser louco, quero que todo mundo seja!



 Sempre fui chamada de louca.   Sempre sempre sempre.


Durante muitos anos não entendi o porquê dessa denominação. Algumas pessoas se referiam o meu gosto musical, que vai da poesia de Emicida, Criolo, Elisa Lucinda, passando por Leonard Cohen, Pennywise, Metallica, Slipknot, Stoned Jesus, QOTSA e bandas do Josh, bem como bandas do Jack White, rock clássico, punk, mil outras variações, stoner rock, alternativo, HARD CORE, progressive, até uma podreira bem gritada, visceral, dilacerante, libertadora.  
Eu entendo, realmente, que achem estranho uma moça/mulher curtir tanta coisa discrepante e pesada. Somado ao fato de eu não gostar de MPB on a daily basis (eu escuto, acho as letras lindas-algumas-, mas o resto não me cativa, sorry!), tenho pavor de sertanejo, de funk e de rap burro.


Eu não assisto novela. Não adianta me obrigar. Quando vejo, normalmente por dar o azar de estar na casa de outra pessoa, sinto como se estivessem me fazendo uma lobotomia... Mas outro dia falo sobre o que penso de novelas. Eu também não assisto aquela emissora que mata os cérebros dos brasileiros diariamente.


 Eu amo tatuagem. E acho que quem se tatua é corajoso. Primeiro porque a sociedade condena e você vira presidiário desde o momento em que sai do estúdio, embalado em plástico filme, parecendo um pedaço de carne. E isso me leva a pensar em outra coisa: a tatuagem te faz sangrar e sentir dor. Acho que isso nos faz colocar os pés no chão, nos iguala a todo mundo, pois todo mundo sangra exatamente da mesma forma, o sangue é da mesma cor em todos. E a dor se diferencia muito pouco de pessoa para pessoa. Os animais também sangram e também sentem dor. A prática da tatuagem , portanto, me faz igual a todos os animais.


Eu não acredito que a homossexualidade seja uma escolha. Se fosse, não haveria outros animais homossexuais -seja por falta de um dos gêneros, seja por química com um parceiro do mesmo sexo. O peixe-palhaço (Nemo), na falta de fêmeas, troca de sexo para garantir a procriação. Ursos polares foram observados e, mesmo com um número igual de fêmeas e machos numa região, cientistas relataram casos de homossexualidade. Acho que os humanos, por sua vez, têm o poder de amar, de sentir algumas coisas que os animais não podem - não tão articulada e intensamente, a meu ver. Ninguém escolhe quem vai amar, quem vai ser escolhido para dormir de conchinha como se não existisse mais nada no mundo a não ser a sensação de paz e completude. Eu acredito em amor para toda a vida.



Momento tenso agora:  eu não acredito em deus. Eu acredito em pessoas. Pessoas criam religiões, pessoas têm a necessidade de  em algo que as conforte, pessoas fazem guerras, governos, escolas, emissoras de tv, livros. Pessoas ajudam pessoas, pessoas fazem merda, pessoas consertam merdas, pessoas salvam pessoas, pessoas deixam pessoas morrer, pessoas largam os filhos no lixo, pessoas escrevem,pessoas leem bem e pessoas leem muito mal, muitas pessoas não sabem ler, pessoas demais são privadas de conhecimento, pessoas de menos detém o poder, pessoas matam em busca de poder, pessoas criam dogmas, lendas, a culpa a fim de obter poder sobre outras pessoas, pessoas fazem descobertas científicas, pessoas usam essas descobertas para dominar outras pessoas, algumas poucas pessoas encontram a a paz em crer na vida omo um momento de pura existência sem motivo maior, pessoas de mais creem numa existência submissa a um ser a fim de uma recompensa no caso dessa existência não ter pecados ou ter arrependimento, pessoas inventam que sextas-feiras 13 são do capeta., pessoas criam lendas de que gatos pretos dão azar, de que passar sob uma escada dá azar, que mulher menstruada não pode lavar a cabeça, que mulher é inferior ao homem, que todos os homens são infiéis, que toda mulher é fútil... e mais um monte de merda. Isso mesmo: merda.. não, não é merda, porque merda pode virar adubo ou combustível. É lixo. Poque lixo não vira nada de bom.. É como uma sacola plástica suja de cola e restos de coisas não biodegradáveis.

Para mim a existência se justifica por si só. Acredito que existimos porque um dia, uma bolinha no vasto cosmos sofreu o impacto com outro astro e as reações químicas dessa colisão deram origem a elementos químicos, que se combinaram de maneiras infinitas até chegarem ao que somos hoje. Somos feitos exatamente das mesmas coisas, e terra, de poeira estelar, de energia. Somos energia. E nosso dever, como seres, é adquirir conhecimento, respeitar o mundo, sentir, criar coisas para sentir -todo tipo de arte- e dialogar, dialogar, dialogar. E, assim como tudo morre,acredito que o mundo também exista para morrer um dia.


Eu vejo um mundo que ruma para a imbecilização. É tanta coisa transviada. Os heróis de hoje são pessoas que não fazem nada de produtivo, nada engrandecedor, só usam da sua imagem e da comercialização de ideias sem nexo, segregacionista, 'culpativas', que bitolam e delimitam pessoas, as tornando objetos de manipulação, que cimentam o medo, que condenam quem se arrisca, quem é diferente, quem ama de verdade, quem vive sem se culpar, quem dá um passo à frente, quem levanta a mão na sala de aula nem que seja pra fazer uma pergunta 'boba", quem busca por conhecimento, quem quer SER.

Aí eu me dei conta de que eu sou louca porque as pessoas que me julgaram e julgam assim são cegas, alienadas, submissas aos sistemas de poder. 

Mas não se preocupem.Como eu disse, é tanta coisa transviada, tanto dogma, tanto tabu.

Eu sou só mais um tabu.


Esta postagem foi escrita ao som de Ratos de Porão, The Rapture, Hatebreed, Pata de Elefante, Pearl Jam, Eminem, System of a Down, Cripple Bastards, Queens of the Stone Age, Agathocles, Ratos de Porão, Napalm Death, Bad Religion....